segunda-feira, 16 de maio de 2016

Meus Musicais




“Numa festa imodesta como esta
Vamos homenagear
Todo aquele que nos empresta sua testa
Construindo coisas pra se cantar” (Caetano Veloso)


Nasci numa casa bem modesta. Sala, quarto, cozinha e banheiro. Tenho algumas poucas lembranças, pois meus pais logo tiveram que aumentá-la, quando os filhos começaram a chegar. Mas a minha melhor recordação dela é de uma grande radiola na sala, um móvel bonito com rádio e toca-discos.
Logo, a música entrou cedo na minha vida. Tínhamos compactos de estórias infantis, as quais eu ouvia repetidas vezes por dia. Até hoje lembro das músicas que acompanhavam as narrativas do Mogli, Dona Baratinha, Chapeuzinho Vermelho, entre outros.
No final de semana, meus pais ouviam discos, onde o som espalhava por toda a casa. Várias vezes, terminavam dançando ao som de Sarita Montiel, Francisco José, “Al di la”, Cauby Peixoto, Ângela Maria, entre outros.
Com o aparecimento da jovem guarda, ouvíamos muito Wanderléia e Roberto Carlos. Eu sabia todas as músicas de cor e salteado, por isso, aos 4 anos, minha mãe me levou num programa de rádio, onde crianças podiam participar. Eu cantei “Nós somos jovens”, da Wanderléia. Nascia uma estrela!
Na adolescência fui me apaixonando pela música popular brasileira com a mesma intensidade que passei a amar o Chico Buarque. De música internacional, gostava do som do George Harrinson, Paul Maccartney, já sem os Beatles, e todos aqueles melosos das tertúlias. Mas o debut mesmo aconteceu na faculdade. Conheci Supertramp, ouvia muito Elton John, Michel Jackson, a tropicália, e tudo mais que aparecia e que os amigos me apresentavam.
Com os filhos ainda pequenos, mostrava músicas, comprava balão mágico, trem da alegria e o que eles iam encontrando pelo caminho. Comemorava aniversários sempre com muita dança, gravava fitas cassetes, misturava rock nacional, Bee Gees, Grease, Embalos de sábado à noite, tudo que dava pra alegrar e balançar o esqueleto.
Hoje tenho um Ipod, com mais de 3500 músicas. Baixei todos os meus cd’s e uso um desses aplicativos de músicas que a gente tem acesso a tudo. Assisto filmes antenada à trilha sonora, meus filhos também me apresentam novidades, e uso tudo isso para estar sempre aberta ao novo. Claro, tem coisa que não consigo ouvir, pois nosso gosto musical é único. Porém não tenho nostalgia, achando que os compositores atuais são piores, vou só acrescentando e misturando.
Monto “playlists” de acordo com meu humor do dia ou da semana. Ouço no carro, em casa e adoro ser a DJ nas reuniões com os amigos. Ao ouvi-las recebo conselhos, repenso atitudes, choro e sinto alegria e paz. Experimentem, super recomendo!


        


         

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Minha mãe


“Eu apenas queria que você soubesse, que aquela alegria ainda está comigo e que a minha ternura não ficou na estrada. Não ficou no tempo presa na poeira. Eu apenas queria que você soubesse, que esta menina hoje é uma mulher e que esta mulher é uma menina, que colheu seu fruto flor do seu carinho “ (Gonzaguinha)

Desde o dia que minha mãe faleceu, há nove meses atrás, tento escrever sobre ela e não consigo. Hoje ela completaria 83 anos e a saudade aportou mais forte. Tivemos uma relação muito intensa, sempre só emoção, a razão passava longe. Alguns amigos dizem que a cada dia pareço mais com o seu jeito, talvez por isso tenhamos brigado tanto.
Foi a mulher mais corajosa que conheci. Não existia nada impossível, a diferença era apenas querer fazer ou não. Obstáculos eram coisas normais. Adorava a vida e me deixou a impressão que só foi quando quis.
Minha avó contava, que aos 5 anos, minha mãe não aceitava a troca da chupeta, pois naquela época o material usado não era durável. Sem saída, minha vó resolveu deixá-la na casa de seus pais durante uma semana, sem avisá-los do vício. Como a comunicação praticamente inexistia, minha mãe chorou nas primeiras noites e logo depois adaptou-se à nova casa. No dia combinado, quando voltou para buscá-la, minha mãe não quis voltar pra casa. Morou com os avós até casar.
Dessa forma encarou a vida. Quando eu nasci, sou a mais velha de cinco irmãos, já era professora de um grupo escolar, me ensinou a ler em casa, e já entrei na escola para fazer o primeiro ano. Depois de quatro filhos, resolveu fazer faculdade de pedagogia, fez cursos para trabalhar com crianças especiais e aposentou-se como diretora do Instituto de Surdos do Ceará.
Como todas as mulheres, mesmo trabalhando, cuidava de tudo em casa. Era severa e brincalhona. Quando precisava, sabia usar um palavrão como ninguém. Não media esforços para que a gente estudasse nas melhores escolas. Queria que tivéssemos todas as oportunidades possíveis, e cobrava resultados firmemente. Quando eu já estava cursando o segundo grau (como se chamava naquela época), me transferiu de uma escola para outra, no meio do ano que, segundo indicações de seus colegas, preparava melhor para o vestibular. Nunca, nem por brincadeira,  levava em consideração a hipótese de que eu e minha irmã não trabalhássemos.
Separou-se, namorou pela internet, viajou sozinha, tomou seu primeiro porre de vinho aos 60, viveu tudo e do jeito que queria.
Vaidosa, ensinou os netos a lhe chamarem de mãezinha, mas foi uma vó que deixou muitos momentos registrados de alegria e carinho no coração de todos.
Fez três cirurgias no coração e na última o médico nos falou que ela só teria 5% de chance de sobreviver. Viveu quase 20 anos mais, só sossegou quando foi diagnosticada com Alzheimer. Cinco anos antes de sua partida, assumi sua vida e ela entendeu seu momento, não brigou com a doença.
Minha mãe me deixou o ensinamento fundamental em minha vida, o que é ser mulher. Lembro quando criança, durante as aulas de preparação de primeira comunhão, um padre falou pra mim, que as mulheres deveriam obedecer aos pais e posteriormente ao marido, buscar a santidade. Minha mãe me ensinou, durante quase 55 anos juntas, que não devemos obediência a ninguém, e que as santas não são felizes.








quinta-feira, 31 de março de 2016

Precisamos do Feminismo



You tell me it gets better, it gets better in time. You say I'll pull myself together, Pull it together, you'll be fine. Tell me, what the hell do you know? What do you know? Tell me how the hell could you know? How could you know? 'Til It happens to you, You don't know how it feels, how it feels, 'Til it happens to you, you won't know, it won't be real. No, it won't real, won't know how it feels.” ( Música "Til It Happens To You" ("Até Que Aconteça Com Você"), escrita por Lady Gaga e Diane Warren para o documentário "The Hunting Ground", sobre estupros acontecidos nas universidades dos EUA.)

Hoje em dia mata-se mais de 10 mulheres por dia no Brasil. Sim, podem assustar-se. De acordo com os dados oficiais*, em 2013 foram 13 por dia e os estudos já demonstram que em 2014 e 2015, os números continuam alarmantes. Não tem outra explicação senão o machismo, que continua em alta na nossa sociedade.
Às vezes, disfarçadamente, com mensagens subliminares em jornais, revistas, novelas, filmes, decisões judiciais, ou mesmo em casamentos perfeitinhos, onde a mulher é responsável por todos os cuidados com os filhos e com a casa. Outras ao vivo, através do cerceamento da liberdade das mulheres em falar, agir e finalmente pela violência. Está inserido até no grupinho de whatsapp da escola, onde só participam as mães.
Desde sempre eu enxerguei isso no mundo. Nunca sonhei em casar de branco, com responsabilidade das tarefinhas de casa ou de cuidar da roupa do marido. Quando fui morar com meu ex-marido tive a esperança de uma relação igualitária sem posições impostas pela sociedade. Claro, foi um fiasco. Isso não existe nem em filmes de comédias românticas.
No trabalho o machismo é um componente inserido na cultura das organizações. Trabalho numa empresa pública e não temos diferenças salariais, mas se verificarmos com mais cuidado, entre homens e mulheres acima de 50 anos, perdemos feio na ocupação de cargos de gerência. Apenas 2 (duas), e acima de 52 anos, nenhuma. Enquanto eles, ocupam esses mesmos cargos já passando dos 60’s. Ou seja, nossa experiência e conhecimento perde a importância junto ao aparecimento das rugas.
Demorei a entender a razão de precisarmos ter um dia. Não gostava, achava que era mais uma coisa para sermos tachadas de diferentes, de precisarmos de mais direitos. Pura arrogância da juventude.
Além disso, tinha receio de me definir como feminista. Se era o contrário de machista, não seria indicado. Mas o necessário é isso mesmo, lutarmos a favor da igualdade com direitos iguais. Na prática e na teoria. O dia da mulher, o dia internacional de eliminação da violência contra as mulheres, são datas importantes a fim de que se levantem dados e principalmente, divulguem-se e discutam-se. As piadas machistas, de gays, negros, entre outros, para mim não tem graça, aliás nunca tiveram. Não concordo com os que reclamam da falta de humor. Precisam sim, fazer piadas com outros assuntos, pois com esses, só se enfatizam os preconceitos.
Conclamo a todos, homens e mulheres: rebelem-se! Sejamos feministas! Eduquemos nossos filhos, a fim de que compreendam a igualdade de gêneros, a multirracialidade, e o respeito que devemos às pessoas, bichos e ao meio ambiente. A paz agradece.

* * http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf