quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Feminismo em Comum



"O feminismo em comum é um convite e um chamado para o diálogo e a luta. Aceitá-lo é uma questão de inteligência sociopoliica e de amor ao mundo". (Marcia Tiburi)


Um dos mais importantes dicionarios dos EUA, o Merriam-Webster elegeu “feminismo”, a palavra do ano de 2017. Confesso a vocês que só comecei a prestar atenção nisso em 2016 quando foi eleita “surreal”. Nas duas vezes, penso que foram bem escolhidas, apesar de achar que 2017 também foi surreal.
Mas vamos ao feminismo. Não tenho dúvida, que deixando de lado as falcatruas politicas, fomos as protagonistas no ano passado. Movimentos, livros, poesias, denuncias, passeatas, exposições, filmes, ocupamos tudo. Discutimos sobre racismo, misoginia, homofobia, violência e demais doenças inclusas no machismo.
E isso foi bom. Trazer à tona assuntos não falados, não revelados, denunciar poderosos que se escondiam sob a égide do patriarcado incomodou.
Senti-me identificada em tudo. Durante toda a minha vida de trabalho em empresas, por falar o que pensava era rotulada como “briguenta”, porque o machismo só aceita o formato da mulher caladinha e resignada. Fui assediada pela primeira vez aos 10 anos, quando um primo de 18, foi morar em minha casa, e num “belo” dia, sentou-me em seu colo com o pau duro. Sofri diversas violências em meu casamento, moral e física, as quais me levaram a passar 6 meses morando longe dos meus filhos.
É isso, a nossa vida de ser quem a gente é não é fácil. Só o feminismo nos salva, não nos deixa sós. Entender o processo do estabelecido, não o aceitar e viver de acordo com as nossas convicções e principalmente, ajudar outras mulheres com afeto e entendimento.
Ainda não tenho muita paciência para debater com espécies machistas, claramente temerosas em perder seus privilégios de uma vida inteira. Reconheço que em minhas redes sociais eles não participam. Mas nessa celeuma, claramente geracional, entre atrizes americanas e francesas, um ou outra dividiu comigo a alegria de alguém falar que não é tão ruim assim, exageramos, precisamos de molestadores a fim de sentirmos completas. Coitados, não entendem que hoje queremos qualidade nas relações, pois descobrimos muitas outras formas de prazer.
Para ajudarmos mais ainda, escrevo hoje para indicar esse livro da foto, da filósofa Marcia Tiburi, “Feminismo em Comum”, que nos propõe um debate, pensamentos críticos, e um maior entendimento do mundo. Leiam, presenteiem homens e mulheres de todas as idades, falem, defendam o feminismo. Precisamos dele para respirar!


sexta-feira, 23 de junho de 2017

A hora da virada

Deixa eu bagunçar você, deixa eu bagunçar você. Deixa eu bagunçar você, deixa eu bagunçar você....” (Liniker)



Um dos primeiros textos desse blog, falei sobre preparar-se para aposentadoria, na ocasião que Ronaldinho, literalmente, pendurava as chuteiras, escrevi:

Urge em nós a preparação para a parada. Aprontar-se para reconhecermos o nosso tempo. É triste vermos pessoas que, independente da grana, não conseguem desligar-se de uma empresa e/ou emprego. Legal mesmo, é fazermos como alguns velhinhos espetáculos, também “fenômenos”, que descobriram outros trabalhos, sem horários e cobranças, só para o deleite e prazer. “

Seis anos depois, estou saindo da empresa onde trabalhei por 35 anos.  A aposentadoria é um momento já descrito no enredo de nossas vidas. Se tudo der certo, vamos envelhecer e nos aposentar. Como sair de casa, casar, ter filhos, trabalhar, mudar de profissão, e outras mudanças, as quais consideramos “normais”. Em todas, passamos quase sempre sem dor e sofrimento. Enquanto a aposentadoria, nos dá medo, nos remete a velhice, a nos tornarmos imprestáveis e desocupados.
Eu, por exemplo, desde o início do ano, me enchi de planos e compromissos. Já estava sem tempo pra nada. Novos compromissos, provas, cursos, ficando doida. Foi então que percebi que estava repetindo um “modus operandi” de sempre. Ansiosa e tensa com resultados.
Parei. Coloquei alguns planos na estante, resolvi celebrar e realizar algumas atividades que sempre quis fazer e o tempo não me permitiu. Terei um semestre sabático, podendo facilmente ser renovado.
Mas não pensem que foi fácil, tem sempre o coleguinha que lhe cobra, e agora? E ainda tem aquele que lhe cumprimenta como o mais novo vagabundo da praça. De vez em quando, tinha que repetir pra mim, que tenho direito a essa parada. Até pra reprogramar um monte de coisa, pensar diferente, fora da caixinha.
Enfim, passei a fase das cobranças e culpas. Lembrando agora dos sonhos que tinha aos 20 anos, alguns realizados, outros deixados pelo caminho, posso atualizá-los aos 56 e partir pra mais uma rodada. É claro que a sensação de tempo é bem diferente, quando jovens temos muito, e agora? Não tenho a menor ideia, mas tenho vitalidade, alegria e vontade. E devo isso ao sentimento que me assola profundamente: a gratidão.
Gratidão pela saudade dos colegas, pelas amizades construídas, por ter tido uma vida profissional cheia de projetos e desafios importantes, e por poder agora partir para mais uma fase da vida com saúde e planos.
Pronta para me bagunçar. Como diz aquela música do Arnaldo Antunes, “não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer, eu quero é viver pra ver qual é, e dizer venha pra o que vai acontecer”. Bora?